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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Amizade em tempos sombrios







“Sem amizade a vida não é nada, pelo menos se quisermos,
viver como seres humanos”

Cícero








Amizade em tempos sombrios

A amizade está em declínio. Qualquer um pode constatar isso no mundo contemporâneo. Os laços humanos tornam-se cada vez mais frágeis e efémeros porque vivemos numa época em que tudo se “liquefaz”, usando a imagem de Z. Bauman. Hoje, antes mesmo que uma amizade se solidifique, ela está condenada a se evaporar frustrando a intenção sincera dos pretensos amigos. O amor também facilmente se evapora. Aliás, a própria vida escorre, rapidamente, sem que possamos aproveitá-la intensamente como parecia acontecer com os antigos.
As preferências vão para a troca e-mails,  participar de um chat, ser incluído num grupo do orkut, ou simplesmente jogar, jogar e jogar em rede com os “amigos virtuais”.  A conexão da Internet ou do celular promete um especial mais-gozar do que estar “ao vivo” com o outro. Ficar face-a-face está ficando cada vez menos necessário.
Cresce os  relacionamentos de faz-de-conta, contactos apenas virtuais, arrumar um bichinho de estimação, viver em algum lugar solitário. A atitude avessa às pessoas não é adoptada apenas por escritores e cientistas; costuma fazer parte de pessoas que vivem o cotidiano académico, não obstante o imperativo de eles terem que conviver com alunos e colegas. “Seria bom trabalhar numa universidade que não tivesse alunos”, diz um pesquisador que odeia ensinar. Outro me confidenciou que não acreditava mais na amizade; outro, diz que somente se interessa conversar com os de “seu nível”. Há aqueles que substituem os amigos pelos “irmãos em Marx”, ou “irmãozinhos da psicanálise segundo Lacan”. Um erudito tentou me convencer de que com a fragmentação irreversível de nossa época resta cada um ficar na sua, em casa, e “conversar” com Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomas de Aquino, apenas com gente que abre o caminho da sabedoria e da ascese. Segundo esse erudito “é mais proveitoso conversar com meus amigos, pensadores, do que com especialistas de nossa época”.  
Hoje é fácil descartar amizades potenciais. A falta de disponibilidade para a amizade verdadeira é tamanha que torna-se visível a resistência para continuar uma conversa que mal teve um início. Não raro, as poucas amizades que ousam ultrapassar a barreira do estereótipo precisam vencer as contingências que concorrem para descartá-las, ou podem simplesmente serem toleradas por interesses profissionais, institucionais, políticos, académicos, comunitários, ou mesmo familiares. Entretanto, segundo Alberoni (1993), essas indicações, acima, nada têm a ver com o conceito de amizade.
Militantes não são amigos. Uma das primeiras frustrações que tive na militância política de esquerda foi reconhecer que entre os militantes não existe verdadeira amizade, mas sim lealdade e interesse na “causa”
Onde as relações são instrumentais não existe verdadeira amizade. As amizades se sustentam apenas onde as relações se aprimoram. Na amizade – e no amor, também – sobressai o impulso natural e o sentido  da relação de querer estar com outro, e basta! Embora a amizade e o amor tenham os seus próprios e camuflados interesses egoístas, a finalidade de ambos é a sustentação do vínculo entre as pessoas que se querem bem. Entretanto, a pseudo amizade dos militantes de uma causa política, religiosa, ou cultural, tem uma finalidade meramente instrumental, porque o outro só existe como “objeto” de uso para conseguir êxito numa causa abstrata ou concreta. Fontes e definição da amizade
Os gregos antigos são fonte de inspiração sobre a amizade. Para Epicuro (341-270 a.C) “embora não altere o sofrimento nem possa evitar a morte, [a amizade ou philia] ajuda a suportá-la (...). Ainda, a philia é o instrumento indispensável ao artesanato ético interior, pois a presença do amigo auxilia a procura e a manutenção da sabedoria...” (Pessanha, 1992).
Epicuro foi o sábio que mais teve amigos, na antiguidade, tamanho foi o número deles que vieram saudá-lo no seu funeral. Embora fosse um homem de saúde frágil, Epicuro, morreu feliz, brindando aos seus amigos com uma taça de vinho.
Aristóteles também não se cansava de dizer que o maior bem que tinha na vida eram os amigos. Uma de suas preocupações, como filósofo, era ensinar aos discípulos como fazer e como manter amizade, dado que existem pessoas que facilmente iniciam uma, mas não sabem como mantê-la. Ou a causa mais comum que é o egocentrismo, onde o interesse é absorver da amizade o que puder para depois a terminar de forma abrupta e maleficamente inconsequente.
Finalizo com uma observação de meu amigo e escritor José Carlos Leal 

“Desconfie de uma pessoa que chama a todos de amigos.  Porque, se ele chama a todos de amigos, provavelmente não se sente amigo de nenhum”

Igor Arvelos



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