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sábado, 17 de fevereiro de 2018

A propósito de… p/ Marta Sobral



A propósito de…

Aquilo que muitos agora defendem para agilizar a Morte, penso que é o resultado de séculos em que a Morte foi dogmatizada pela igreja, usando-a como arma de poder sobre os Homens, que são dominados pelo Medo daquilo que não compreendem e que são criados numa civilização em que a ligação inata com o divino, manifestada na ligação à natureza, foi cortada e mediatizada pelas religiões dominantes. Se calhar deve ser por isso que não me surpreende o silêncio dos católicos, provavelmente a confissão que mais cultivou o medo da morte, que no íntimo dos seus crentes continua bem enraizado e os convida a um confortável silêncio.
Não é por acaso que nas civilizações ditas atrasadas, menos evoluídas, em que a ligação à natureza se mantém como parte estruturante da Vida, a Morte é encarada com maior leveza, respeito e até em clima de celebração, como em África. Encontro na visão budista, que encara a Morte como um momento do processo natural que é a Vida, uma abordagem que me ajudou a pacificar com o medo secular da morte, fazendo-me entender que a qualidade da minha morte apenas a mim me responsabiliza, pela forma como conduzo a vida. E no derradeiro momento não devemos reclamar o papel de julgadores, decidindo quem deve ou pode viver ou morrer, ou como e quando se deve morrer. A morte de cada um é um processo individual, marcado pelas leis do carma e do merecimento individual, sendo também muitas vezes uma prova de compaixão e de exercício do perdão, para quem assiste aquele quem se aproxima da morte:

“Segundo os ensinamentos budistas, devemos fazer tudo ao nosso alcance para ajudar quem está a morrer a lidar com a sua deterioração, dor e medo, oferecendo-lhe um apoio cheio de amor que dará sentido ao final da sua vida. Cicely Saunders, condecorada com a Ordem demérito pela rainha isabel II e fundadora do Centro de cuidados paliativos de st. Christopher em Londres, afirmou: “Se um dos nossos doentes solicita a eutanásia, significa que não estamos a fazer o que nos compete”. Ela argumenta contra a legalização da eutanásia e refere: Não somos uma sociedade assim tão pobre que não possa dispensar tempo, trabalho e dinheiro para ajudar as pessoas a viverem até á morte. É nosso dever aliviar-lhes a dor que os aprisiona no medo e na amargura. Para que tal aconteça não precisamos de as matar …. Legalizar a eutanásia voluntária (activa) seria um acto irresponsável, que dificultaria a ajuda, pressionando os vulneráveis e abdicando do nosso verdadeiro respeito e responsabilidade  para com os mais frágeis e mais velhos, os incapacitados e perante aqueles que estão a morrer”.  In O Livro Tibetano da Vida e da Morte.

Já no Espiritismo, fez-se luz sobre a razão de a morte não dever ser abreviada, face à importância de um último minuto consciente e redentor, durante o qual o espírito, suavizado do seu sofrimento pela assistência e  compaixão de quem o envolve,  pode pacificar-se com a sua vida e partir em paz:

“Sei muito bem que há casos que se pode considerar, com razão , desesperadores. Mas se não há nenhuma esperança fundada de um retorno definitivo à vida e à saúde, não há também incontáveis exemplos de que, no momento de dar o último suspiro, o doente se reanima e recobra a sua lucidez por alguns instantes? Pois bem! Essa hora de graça que lhe é concedida pode ser da maior importância , pois ignorais os pensamentos que o espírito pode pôde fazer nos seus momentos finais da sua agonia e quantos tormentos lhe pode poupar um minuto, um momento de arrependimento. O materialista que apenas vê o corpo e não se dá conta da alma não pode compreender estas coisas. (…) Suavizai os últimos sofrimentos tanto quanto vos seja possível fazê-lo, mas guardai-vos de encurtar a vida, que seja apenas um minuto, pois esse minuto pode poupar muitas lágrimas no futuro”.  O Evangelho Segundo o Espiritismo, Alain Kardec.

Nas duas perspectivas, enaltece-se a importância da assistência compassiva e amorosa de quem acompanha a pessoa até esse momento derradeiro, assim se encarando a Morte como uma missão ou um desafio, quer para quem parte, mas também para quem pode aliviar os medos e sofrimentos dessa partida.


Marta Sobral


2 comentários:

  1. Bem haja Adelina lopes e colaboradores nesta luta pela integralidade do ser humano.

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  2. Bom dia Lino Meireles

    As vozes unidas não podem ser ignoradas para sempre. Façamos ouvir a nossa voz. Grata

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