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domingo, 28 de janeiro de 2018

O que anda o Facebook a fazer à nossa sociedade? JN

O que anda o Facebook a fazer à nossa 
sociedade?



Alertas vindos de ex-quadros apontam para a manipulação dos utilizadores. O JN ouviu investigadores: "Nem apocalípticos nem integrados".
Natal chegou. E com ele um dos momentos mais esperados do ano. O momento de reunir as famílias que, por vezes, só têm este dia para se juntar. Mas como é que a geração do milénio vive esta quadra tão familiar, tão pessoal, tão cara a cara? Com um telemóvel ligado à Internet. E a bateria no máximo...
Já não se fazem círculos de conversa à volta da mesa, mas sim grupos de chat onde todos podem conversar. Às vezes, de um lado para o outro da dita mesa. Já não se tiram fotografias para adornar as paredes de casas. Ao invés, publicam-se nas redes sociais para eternizar. Ou partilhar com o mundo inteiro. Ou somar "gostos". Porque já não bastam os elogios dos amigos e da família.
"A arte da conversa olhos nos olhos começa a perder-se", diz Hélder Bastos, diretor da Licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade do Porto, satisfeito por "começar a haver o esboço de uma crítica às redes sociais". Até agora, "as críticas tinham sido mantidas em silêncio em Silicon Valley por serem más para o negócio". Já não é assim.
Várias têm sido as vozes a criticar publicamente as redes sociais. Alguns vindas de dentro. O detrator que mais recentemente deu a cara é Chamath Palihapitiya. Ex-diretor executivo do Facebook, era responsável por gerir e aumentar os utilizadores. Em novembro, disse sem receios que as redes, e essencialmente o Facebook, estão "a danificar as bases fundamentais de como as pessoas se comportam e se relacionam".
Admitindo sentir-se "tremendamente culpado" por ter participado na construção de uma ferramenta que está agora a "destruir a forma como a sociedade funciona", Chamath Palihapitiya afirmou sem papas na língua: "Eu não uso esta merda e não permito que os meus filhos usem esta merda".
Lenha para a vaidade
A ligação às redes é constante. Tanta que, por vezes, perde-se a noção do tempo e do real. Até que ponto somos capazes de controlar a nossa atividade e perceber que nos estamos a afastar da vida fora do ecrã?
Para Hélder Bastos, as redes sociais "trabalham para aumentar a dependência das pessoas à Internet através do prazer, da constante espera de "likes" e de comentários". E a dependência torna-se mais grave quando alimenta o narcisismo. A adoração do eu e o fascínio pela própria imagem é constantemente alimentada pela "personagem" que criamos no perfil. "A sociedade global é estimulada a "especularizar-se" digitalmente. Então há um gozo narcísico nas redes sociais", explica Fábio Malini, investigador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), da Universidade Federal Espírito Santo, no Brasil.
Palihapitiya não foi o único ex-quadro do Facebook a criticar a empresa. Também Sean Parker, presidente fundador, acusou a rede social de se aproveitar da "vulnerabilidade da psicologia humana". Diz Hélder Bastos que "as implicações deste fenómeno das redes estão a ser brutais". Porque, até agora, "o Facebook estava a trabalhar para aumentar a dependência das pessoas com a Internet".
Se levantarmos os olhos na rua, pouco será o contacto visual que se estabelece com outros transeuntes. Um fenómeno, pode dizer-se, universal. As cabeças baixam-se para os ecrãs e a voz dá lugar ao texto escrito. "Tudo tem um lado positivo", ressalva Helder Bastos, mas as redes têm "um lado que está a deteriorar muitas das qualidades da comunicação humana". Enquanto académico ligado à comunicação, admite alguma preocupação com estas questões, "por afetarem a capacidade de ouvir, de olhar olhos nos olhos, até mesmo de falhar".
João Teixeira Lopes, presidente da Associação Portuguesa de Sociologia e docente da faculdade de Letras da Universidade do Porto, tem uma visão menos derrotista. "Nem apocalípticos nem integrados", sublinha, recorrendo a Umberto Eco. "Não quero ter uma visão catastrofista, mas é evidente que há um enorme efeito das redes sociais na construção das identidades".
Chamath Palihapitiya descreveu a rede social como uma plataforma de criação de informações erradas, repletas de inverdades e desprovidas de qualquer "discurso civil" - e este foi o primeiro problema apontado por João Teixeira Lopes. Um dos efeitos do Facebook é "aquilo a que se pode chamar de atitude pós-verdade, ou seja, cada vez mais a confirmação dos factos parece ser indiferente às pessoas", afetando o "processo da constituição das opiniões".
Para Fábio Malini, professor e investigador na área das ciências de dados, redes sociais e comunicação política, "toda a ferramenta que determina o que um usuário poderá ler, ouvir e ver influencia duplamente o comportamento: individual e coletivamente". Nas palavras de Palihapitiya, os comportamentos "estão a ser programados" sem que as pessoas se apercebam disso, questão que tem sido levantada por vários académicos. "Estão a manipular as pessoas. Há uma espécie de premeditação, sabem como fazer com que as pessoas tenham determinado comportamento", defende Hélder Bastos.
Não só as redes têm impacto nas relações interpessoais, como também na ação do indivíduo na esfera pública. "A esfera pública, em termos tradicionais, é uma esfera de participação, em que várias partes expõem os seus argumentos e há troca, contra-argumentação e até conflito, que também é muito importante", explica João Teixeira Lopes.
"Podemos ver isso explícito na eleição de Donald Trump, que, sabe-se agora, foi eleito com base em mentiras, em notícias falsas rapidamente propagadas, que ganhavam um grande número de "likes" e muitas foram mesmo criadas dentro da própria campanha". Gera-se, assim, o problema da construção de opinião e espírito crítico, fortemente influenciado nesta era da pós-verdade.
A questão aqui é bastante curiosa, explica Fábio Malini. "Quando as redes são baseadas em circunvizinhanças - ou em bolhas ideológicas -, a tendência é os indivíduos protegerem-se uns aos outros, circulando correntes de informação duvidosa para proteger a sua comunidade de amigos. O Facebook hospeda um comportamento coletivo baseado num poder pastoral. Nele, as pessoas precisam comummente de liderar rebanhos".
E são estas correntes que se movem em círculos que afetam a construção das opiniões ou mesmo, como disse Palihapitiya, programam os públicos. "Então quanto mais próximos, menor é a nossa autonomia informativa, porque não temos acesso ao ponto de vista diferente", acrescenta Fábio Malini.
Esforço no "fact-checking"
Envolto numa onda de polémicas, o Facebook não parou. Perante acusações sobre propagação de notícias falsas, arregaçou as mangas e começou a criar ferramentas para travar o fenómeno. Há dias, anunciou estar a mudar a forma como identifica "notícias falsas" para um sistema mais eficaz. Em vez de apenas assinalar as notícias que já foram verificadas pela equipa responsável pela verificação de factos (fact-checkers), o Facebook passará a associar-lhes "artigos relacionados", dando assim aos utilizadores o contexto fornecido pelos verificadores de factos sobre as falhas dessas histórias.
Ainda que pareça não haver solução mágica para um fenómeno transversal a todo o Mundo, os investigadores acreditam que passa por educar e consciencializar os públicos para estas transformações. Não culpando apenas a ferramenta ou o utilizador, é fundamental conseguir moderar o uso e a influência, por via da educação e da implementação de regras. Este é o argumento que une tanto Hélder Bastos como João Teixeira Lopes.
Da mesma forma que Palihapitiya pediu à audiência que o ouvia que descansasse das redes sociais - "encorajo-vos a todos a interiorizar a gravidade do problema" -, Hélder Bastos e João Teixeira Lopes acreditam que é essencial dar um passo atrás e olhar o fenómeno de uma outra perspetiva. "As camadas mais jovens são nativos digitais, não têm termo de comparação" e por isso é importante "criar momentos de exterioridade".

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