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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Em tempo de férias, um conto "Como fazer a mala"




Em tempo de férias, um conto –

Como fazer a mala




No atribulado início da viagem e já na sala de embarque os passageiros eram informados que o voo teria 40 minutos de atraso que posteriormente se tornaram em duas horas. A mulher sentada ao meu lado sorriu-me e encaixou-se melhor na cadeira na perspectiva da espera. Passados uns minutos consultou as horas no telemóvel e accionou imagens nas quais se detinha compassadamente.
E naquela intimidade que se gera entre desconhecidos no mesmo “barco”, olhou-me dizendo: as crianças são os alicerces de um novo mundo - concordei e apresentei-me, ela retribuiu dizendo que se chamava Maria.
Os passageiros foram finalmente chamados a embarcar e perdi de vista a recém-conhecida.
Coincidimos de novo em mais uma longa espera, na saída das malas dos tapetes rolantes. Emiti uma frase de descontentamento com as condições desta viagem, à qual Maria respondeu com uma frase inusitada: foquemo-nos no milagre e não nas condições - o meu olhar inquisidor fê-la continuar: sabe, na noite passada, sonhei com um acidente aéreo, e em que deitada em terra, tentava desviar-me de alguns destroços em arremesso pelo ar, acordei com o sonho bem presente e com a sensação de que este, nesse dia, seria realidade.
Enquanto dava os últimos retoques à minha mala, verifiquei se lá tinha colocado a confiança em que tudo acontece na hora certa – a gratidão pelos já longos anos de experiência enquanto encarnada – o perdão de tudo e para tudo que a vida me proporcionou – os votos de coragem para os que ainda têm caminho a percorrer – pelo canal da alma, despedi-me de todos os que fazem parte da minha vida – finalmente verifiquei o nível de paz, imenso, e fechei a mala.
Ao sair, abençoei o meu neto e ofereci-lhe o meu talismã preferido dizendo-lhe, isto vai fortalecer-te para que possas corresponder aos desafios da tua senda.
Apreciei cada segundo da viagem até ao aeroporto, a algazarra dos pássaros que pareciam tão perto, as cores das árvores vibrantes como nunca, e o olhar acolhedor de quantos se cruzavam comigo.
Já na sala de espera do aeroporto, verifiquei que a maioria dos passageiros eram casais jovens, com muitas crianças, inclusive vários bebés, e questionei o céu, orei pela transmutação dos carmas que os reuniu nesta viagem, nesta ínfima partícula de tempo, e que nos seus corações se acendesse ou reacendesse a chama da sua condição de co-criadores de um novo mundo.
Maria calou-se e sorriu de novo, penso que divertida com a expressão que via no meu rosto. O tapete rolante reiniciou a sua marcha e avistamos as nossas malas. Maria recolheu a dela, olhou-me tão só, e caminhou em direcção à saída. Enquanto recolhia a minha, o meu pensamento recordou a primeira e única mensagem do comandante do avião aos passageiros, pouco antes de aterrar, em que pedia desculpas pelo atraso que afectou o voo, uma falha mecânica tinha sido detectada no avião e a sua reparação tinha sido mais demorada que o previsto.


MA



8 de Agosto 2016






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