Era um tarde
de um dia de semana. No meu escritório de um 7º andar de uma das ruas mais
movimentadas do Porto, aguardava pelas 15h00 enquanto trabalhava, sentindo uma
expectativa crescente sobre o que iria acontecer: irão as pessoas aderir? Uns
minutos antes daquela hora parei de teclar e dirigi-me ao terraço fantástico
que ficava nas alturas, de onde avistava uma paisagem que se prolongava no
olhar por terras vizinhas. Mas logo ali, debaixo e bem mais perto do meu olhar,
estava a Rua Fernandes Tomás, na sua azáfama e frenesim habitual, de pessoas e
carros, cujo movimento era ritmado pelas buzinas e palavrões dos mais
impacientes. Irão parar?
Às 15h00 em
ponto os carros, um a um começaram a parar na rua. Os seus condutores abriram
as portas e puseram-se ao seu lado, numa atitude de respeito e de introspecção,
como se depreendia do seu queixo apontado ao chão. Pelos passeios, uma amoldura
de pessoas apressadas, que subitamente suspendeu o próximo passo e se quedou no
passeio, com o queixo apontado na mesma direcção. Foram 3 minutos em que não se
ouviram buzinadelas, nem o tão afamado calão portuense, vindo de alguma
garganta apressada e mais distraída, alheada do que ali se passava. Este
cenário repetiu-se por todo o país durante 3 minutos, durante os quais os
Portugueses mostraram a sua solidariedade com o Povo irmão de Timor, que era
massacrado nos écrans das nossas televisões e dava os últimos Gritos de
Ipiranga, para alcançar a tão desejada liberdade e independência.
Hoje
pergunto com saudade: para onde foi este meu País? Para onde foi o país dos
destemidos e inconformados marinheiros, Infantes, povo incógnito, que encheu
caravelas? Terá zarpado com os portugueses que emigraram, inconformados com o
país que não lhes proporciona trabalho com salário digno? Serão esses que ainda
carregam o gene do inconformismo e da luta destemida, aventurando-se por mares
e terras desconhecidas, à procura do pão que o seu país lhes nega?
Em Espanha
morreram cerca de 40 pessoas num incêndio, na mesma altura em que por cá se
ultrapassava a fasquia da centena. Lá saíram logo à rua, sem esperarem pelas
redes sociais, e nas ruas ficou bem claro que não iriam tolerar outro desastre
igual. Na Islândia um Povo cercou durante três dias o parlamento com panelas, até
o governo que queria assumir os prejuízos dos bancos se demitir. Por cá “tá-se
bem!”. Morrem compatriotas nossos numa estrada, que podia ser a estrada de um
passeio de fim-de-semana de qualquer um de nós, e continua-se com a vidinha do
costume! Lá se faz uma chamada de valor acrescentado, vamos a um concerto para
festejar a tragédia, aliviamos a consciência e “tá-se bem!”.
No dia a
seguir continuamos a ver o autocarro povoado de autómatos com fones nos
ouvidos, a ver um país que não exercita os neurónios, porque pensa pelos
comentadores de serviço, sobrevivendo na vidinha do dia-a-dia, aliados do
sofrimento das imagens dos rostos que nos entram na sala pela televisão, que perderam
tudo, levado pelo fogo. Até o Pinhal do Rei não escapou desta vez!
E dou por
mim a pensar: que saudades do meu país que ficou algures perdido naqueles três
minutos, de uma tarde longínqua! A minha esperança é que um dia destes o
encontre ao virar da esquina e lhe diga com a saudade que um velho amigo nos faz
sentir: já fazias falta! Ainda bem que voltaste!
Marta Sobral
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