Bem-vindos a este espaço de partilha de todos para todos

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Trabalho Físico e Trabalho Espiritual - O comboio nos dois carris, lembram?



Para imensas pessoas, o trabalho físico é incompatível com o trabalho espiritual. Ora bem, elas enganam-se, porque qualquer actividade física pode ser espiritualizada se se souber introduzir nela um elemento divino e, em contrapartida, uma actividade espiritual passa a ser extremamente prosaica se não visar um ideal superior. Todos os que tomam a vida espiritual como pretexto para abandonarem o trabalho, a cooperação, a luta pela justiça no plano físico não são espiritualistas, na realidade, mas preguiçosos. Muito poucos seres são capazes de manter um verdadeiro trabalho espiritual durante várias horas. Os outros deixam-se levar apenas por divagações que os enfraquecem, que os transtornam; muitas vezes, fariam melhor se fossem lavar roupa, cozinhar ou tratar do jardim. Ainda há muitos mal-entendidos sobre esta questão. A espiritualidade não consiste em recusar as actividades físicas, mas em saber utilizá-las para se elevar, se harmonizar, se ligar a Deus.
Tenho ouvido frequentemente pessoas que se intitulam espiritualistas dizerem que, ao trabalharem no plano físico, perdiam a sua luz! Meu Deus! Mas o que compreenderam elas da natureza da luz? Os homens primitivos sabiam mais do que elas a este respeito. Quando queriam acender o fogo, por exemplo, eles pegavam em dois pedaços de madeira e esfregavam-nos um no outro: este atrito produzia calor e, passados uns momentos, aparecia uma chama, a luz. A luz é, pois, o resultado do movimento e do calor. Sim, aquele que faz trabalho no plano físico pondo nele toda a sua convicção e consciência sente nascer em si o amor, "o calor", por esse trabalho; o seu coração rejubila e jorra uma luz no seu espírito.
Deveis, pois, compreender que o trabalho no plano físico é indispensável para a evolução de cada um. Mesmo que ninguém vo-lo peça, vós próprios deveis obrigar-vos a ele; isso reflectir-se-á de uma maneira benéfica em primeiro lugar na vossa saúde, mas também na vossa compreensão das coisas. Desde acções sociais para o bem conjunto, e também em vossa casa, sempre que tiverdes ocasião de limpar, de arrumar, de lavar, de coser, de fazer pequenos trabalhos, fazei-o, nunca vos mostreis negligentes. Dizei a vós próprios que não é deixando o trabalho material para os outros que dareis mostras de que sois mais evoluídos. Precisais de vos desembaraçar de uma vez por todas desses conceitos errados. Se imaginais que trabalhando fisicamente perdereis a vossa luz, muito bem, é preferível perdê-la, porque essa não é a verdadeira luz! A verdadeira luz ninguém a perde trabalhando, pelo contrário. Se trabalhardes, ela não vos abandonará; é graças ao trabalho que compreendereis melhor as coisas, que fareis descobertas, não é deixando-o para outros, alegando que estais em conversa com os anjos ou com o Senhor.
A verdadeira luz está ligada ao verdadeiro amor, o verdadeiro amor está ligado à verdadeira vontade e a vontade treina-se pelo trabalho no plano físico. 



Mestre Omraam Mikhaël Aïvanhov.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A propósito de… p/ Marta Sobral



A propósito de…

Aquilo que muitos agora defendem para agilizar a Morte, penso que é o resultado de séculos em que a Morte foi dogmatizada pela igreja, usando-a como arma de poder sobre os Homens, que são dominados pelo Medo daquilo que não compreendem e que são criados numa civilização em que a ligação inata com o divino, manifestada na ligação à natureza, foi cortada e mediatizada pelas religiões dominantes. Se calhar deve ser por isso que não me surpreende o silêncio dos católicos, provavelmente a confissão que mais cultivou o medo da morte, que no íntimo dos seus crentes continua bem enraizado e os convida a um confortável silêncio.
Não é por acaso que nas civilizações ditas atrasadas, menos evoluídas, em que a ligação à natureza se mantém como parte estruturante da Vida, a Morte é encarada com maior leveza, respeito e até em clima de celebração, como em África. Encontro na visão budista, que encara a Morte como um momento do processo natural que é a Vida, uma abordagem que me ajudou a pacificar com o medo secular da morte, fazendo-me entender que a qualidade da minha morte apenas a mim me responsabiliza, pela forma como conduzo a vida. E no derradeiro momento não devemos reclamar o papel de julgadores, decidindo quem deve ou pode viver ou morrer, ou como e quando se deve morrer. A morte de cada um é um processo individual, marcado pelas leis do carma e do merecimento individual, sendo também muitas vezes uma prova de compaixão e de exercício do perdão, para quem assiste aquele quem se aproxima da morte:

“Segundo os ensinamentos budistas, devemos fazer tudo ao nosso alcance para ajudar quem está a morrer a lidar com a sua deterioração, dor e medo, oferecendo-lhe um apoio cheio de amor que dará sentido ao final da sua vida. Cicely Saunders, condecorada com a Ordem demérito pela rainha isabel II e fundadora do Centro de cuidados paliativos de st. Christopher em Londres, afirmou: “Se um dos nossos doentes solicita a eutanásia, significa que não estamos a fazer o que nos compete”. Ela argumenta contra a legalização da eutanásia e refere: Não somos uma sociedade assim tão pobre que não possa dispensar tempo, trabalho e dinheiro para ajudar as pessoas a viverem até á morte. É nosso dever aliviar-lhes a dor que os aprisiona no medo e na amargura. Para que tal aconteça não precisamos de as matar …. Legalizar a eutanásia voluntária (activa) seria um acto irresponsável, que dificultaria a ajuda, pressionando os vulneráveis e abdicando do nosso verdadeiro respeito e responsabilidade  para com os mais frágeis e mais velhos, os incapacitados e perante aqueles que estão a morrer”.  In O Livro Tibetano da Vida e da Morte.

Já no Espiritismo, fez-se luz sobre a razão de a morte não dever ser abreviada, face à importância de um último minuto consciente e redentor, durante o qual o espírito, suavizado do seu sofrimento pela assistência e  compaixão de quem o envolve,  pode pacificar-se com a sua vida e partir em paz:

“Sei muito bem que há casos que se pode considerar, com razão , desesperadores. Mas se não há nenhuma esperança fundada de um retorno definitivo à vida e à saúde, não há também incontáveis exemplos de que, no momento de dar o último suspiro, o doente se reanima e recobra a sua lucidez por alguns instantes? Pois bem! Essa hora de graça que lhe é concedida pode ser da maior importância , pois ignorais os pensamentos que o espírito pode pôde fazer nos seus momentos finais da sua agonia e quantos tormentos lhe pode poupar um minuto, um momento de arrependimento. O materialista que apenas vê o corpo e não se dá conta da alma não pode compreender estas coisas. (…) Suavizai os últimos sofrimentos tanto quanto vos seja possível fazê-lo, mas guardai-vos de encurtar a vida, que seja apenas um minuto, pois esse minuto pode poupar muitas lágrimas no futuro”.  O Evangelho Segundo o Espiritismo, Alain Kardec.

Nas duas perspectivas, enaltece-se a importância da assistência compassiva e amorosa de quem acompanha a pessoa até esse momento derradeiro, assim se encarando a Morte como uma missão ou um desafio, quer para quem parte, mas também para quem pode aliviar os medos e sofrimentos dessa partida.


Marta Sobral