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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Partilhado por Elisabete Pinho

Charlie Hebdo: uma reflexão difícil.

BOAVENTURA SOUSA SANTOS

14/01/2015 - 05:19 - Jornal "O Público"


"Não estamos perante um choque de civilizações, até porque a cristã tem as mesmas raízes que a islâmica. Estamos perante um choque de fanatismos, mesmo que alguns deles não apareçam como tal por nos serem mais próximos.
O crime hediondo que foi cometido contra os jornalistas e cartoonistas do Charlie Hebdo torna muito difícil uma análise serena do que está envolvido neste acto bárbaro, do seu contexto e seus precedentes e do seu impacto e repercussões futuras. No entanto, esta análise é urgente, sob pena de continuarmos a atear um fogo que amanhã pode atingir as nossas consciências. Eis algumas das pistas para tal análise.
A luta contra o terrorismo, tortura e democracia. Não se podem estabelecer ligações directas entre a tragédia do Charlie Hebdo e a luta contra o terrorismo que os EUA e seus aliados têm vindo a travar desde o 11 de Setembro de 2001. Mas é sabido que a extrema agressividade do Ocidente tem causado a morte de muitos milhares de civis inocentes (quase todos muçulmanos) e tem sujeitado a níveis de tortura de uma violência inacreditável jovens muçulmanos contra os quais as suspeitas são meramente especulativas, como consta do recente relatório presente ao Congresso norte-americano. E também é sabido que muitos jovens islâmicos radicais declaram que a sua radicalização nasceu da revolta contra tanta violência impune. Perante isto, devemos reflectir se o caminho para travar a espiral de violência é continuar a seguir as mesmas políticas que a têm alimentado como é agora demasiado patente. A resposta francesa ao ataque mostra que a normalidade constitucional democrática está suspensa e que um estado de sítio não declarado está em vigor, que os criminosos deste tipo, em vez de presos e julgados, devem ser abatidos, que este facto não representa aparentemente nenhuma contradição com os valores ocidentais. Entramos num clima de guerra civil de baixa intensidade. Quem ganha com ela? Certamente não o partido Podemos em Espanha ou o Syriza na Grécia.
A liberdade de expressão. É um bem precioso mas tem limites, e a verdade é que a esmagadora maioria deles são impostos por aqueles que defendem a liberdade sem limites sempre que é a "sua" liberdade a sofrê-los. Exemplos de limites são imensos: se em Inglaterra um manifestante disser que David Cameron tem sangue nas mãos, pode ser preso; em Franças, as mulheres islâmicas não podem usar o hijab; em 2008 o cartoonista Maurice Siné foi despedido do Charlie Hebdo por ter escrito uma crónica alegadamente anti-semita. Isto significa que os limites existem, mas são diferentes para diferentes grupos de interesse. Por exemplo, na América Latina, os grandes média, controlados por famílias oligárquicas e pelo grande capital, são os que mais clamam pela liberdade de expressão sem limites para insultar os governos progressistas e ocultar tudo o que de bom estes governos têm feito pelo bem-estar dos mais pobres. Aparentemente, o Charlie Hebdo não reconhecia limites para insultar os muçulmanos, mesmo que muitos dos cartoons fossem propaganda racista e alimentassem a onda islamofóbica e anti-imigrante que avassala a França e a Europa em geral. Para além de muitos cartoons com o Profeta em poses pornográficas, um deles, bem aproveitado pela extrema-direita, mostrava um conjunto de mulheres muçulmanas grávidas, apresentadas como escravas sexuais do Boko Haram, que, apontando para a barriga, pediam que não lhes fosse retirado o apoio social à gravidez. De um golpe, estigmatizava-se o islão, as mulheres e o Estado social. Ao longo dos anos, a maior comunidade islâmica da Europa foi-se sentindo ofendida por esta linha editorial, mas igualmente foi pronta no seu repúdio deste crime bárbaro. Devemos, pois, reflectir sobre as contradições e assimetrias na vida vivida dos valores que cremos serem universais.
Tolerância e "valores ocidentais". O contexto em que o crime ocorreu é dominado por duas correntes de opinião, nenhuma delas favorável à construção de uma Europa inclusiva e intercultural. A mais radical é frontalmente islamofóbica e anti-imigrante. É a linha dura da extrema-direita em toda a Europa e da direita, sempre que se vê ameaçada por eleições próximas (o caso de Antonis Samara na Grécia). Para esta corrente, os inimigos da nossa civilização estão entre nós, odeiam-nos, têm os nossos passaportes, e a situação só se resolve vendo-nos nós livres deles. A outra corrente é a da tolerância. Estas populações são muito distintas de nós, são um fardo, mas temos de as "aguentar", até porque nos são úteis; no entanto, só o devemos fazer se elas forem moderadas e assimilarem os nossos valores. Mas o que são os "valores ocidentais"? Depois de muitos séculos de atrocidades cometidas em nome deles dentro e fora da Europa – da violência colonial às duas guerras mundiais –, exige-se algum cuidado e muita reflexão sobre o que são esses valores e por que razão, consoante os contextos, ora se afirmam uns ora se afirmam outros. Por exemplo, ninguém põe hoje em causa o valor da liberdade, mas já o mesmo não se pode dizer dos valores da igualdade e da fraternidade. Ora, foram estes dois valores que fundaram o Estado social de bem-estar que dominou a Europa democrática depois de Segunda Guerra Mundial. No entanto, nos últimos anos, a protecção social, que garantia níveis mais altos de integração social, começou a ser posta em causa pelos políticos conservadores e é hoje concebida como um luxo inacessível para os partidos do chamado "arco da governabilidade". A crise social causada pela erosão da protecção social e pelo aumento do desemprego, sobretudo entre jovens, não será lenha para o fogo do radicalismo por parte dos jovens que, além do desemprego, sofrem a discriminação étnico-religiosa?
O choque de fanatismos, não de civilizações. Não estamos perante um choque de civilizações, até porque a cristã tem as mesmas raízes que a islâmica. Estamos perante um choque de fanatismos, mesmo que alguns deles não apareçam como tal por nos serem mais próximos. A história mostra como muitos dos fanatismos e seus choques estiveram relacionados com interesses económicos e políticos que, aliás, nunca beneficiaram os que mais sofreram com tais fanatismos. Na Europa e suas áreas de influência é o caso das cruzadas, da Inquisição, da evangelização das populações coloniais, das guerras religiosas e da Irlanda do Norte. Fora da Europa, uma religião tão pacífica como o budismo legitimou o massacre de muitos milhares de membros da minoria tamil do Sri Lanka; do mesmo modo, os fundamentalistas hindus massacraram as populações muçulmanas de Gujarat em 2003; é também em nome da religião que Israel continua a impune limpeza étnica da Palestina e que o chamado Emirado Islâmico massacra populações muçulmanas na Síria e no Iraque. Várias perguntas sem resposta por agora. A defesa da laicidade sem limites numa Europa intercultural, onde muitas populações não se reconhecem em tal valor, será afinal uma forma de extremismo? Os diferentes extremismos opõem-se ou articulam-se? Quais as relações entre os jihadistas e os serviços secretos ocidentais? Por que é que os jihadistas do Emirado Islâmico, que são agora terroristas, eram combatentes de liberdade quando lutavam contra Kadhafi e contra Assad? Como se explica que o Emirado Islâmico seja financiado pela Arábia Saudita, Qatar, Kuwait e Turquia, todos aliados do Ocidente? Uma coisa é certa, pelo menos na última década, a esmagadora maioria das vítimas de todos os fanatismos (incluindo o islâmico) são populações muçulmanas não fanáticas.
O valor da vida. A repulsa total que sentimos perante estas mortes deve-nos fazer pensar por que razão não sentimos a mesma repulsa perante um número igual ou muito superior de mortes inocentes em resultado de conflitos que, no fundo, talvez tenham algo a ver com a tragédia do Charlie Hebdo? No mesmo dia, 37 jovens foram mortos no Iémen num atentado bombista. No verão passado, a invasão israelita causou a morte de 2000 palestinianos, dos quais cerca de 1500 civis e 500 crianças. No México, desde 2000, foram assassinados 102 jornalistas por defenderem a liberdade de imprensa e, em Novembro de 2014, 43 jovens, em Ayotzinapa. Certamente que a diferença na nossa reacção não pode estar baseada na ideia de que a vida de europeus brancos, de cultura cristã, vale mais que a vida de não europeus ou de europeus de outras cores e de culturas assentes noutras religiões. Será então porque estes últimos estão mais longe de nós ou conhecemo-los pior? Será porque os grandes média e os líderes políticos do Ocidente trivializam o sofrimento causado a esses outros, quando não os demonizam ao ponto de nos fazerem pensar que eles não merecem outra coisa?"


BOAVENTURA SOUSA SANTOS  - Director do Centro de Estudos Sociais, Laboratório Associado, da Universidade de Coimbra


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Homenagem ao grande Khalil Gibran na data do seu nascimento




Khalil Gibran, 

 6 de Janeiro 1883/ 
10 de Abril 1931




Um dos maiores nomes da literatura, mas essencialmente um espírito elevado e sensível como expõe na sua poesia e ensinamentos



domingo, 4 de janeiro de 2015

Regeneração


                         
                            Regeneração








Que melhor data que estes primeiros dias do ano para uma reflexão d`alma.
Fazendo uso da regra de Aristóteles “Cada um receberá em conformidade com seus méritos ou necessidades”, esta afirmação aparentemente simples, é na realidade a promessa celeste de que cada um recebe a cada momento as alfaias devidas, não para sua auto complacência, mas para sua regeneração.
“Cuidado com o que pedes, pode ser-te concedido”, por vezes, o que parecem ser respostas a desejos e almejos, são ferramentas probatórias, códigos, que apenas a consciência superior pode decifrar. Nunca uma benesse divina servirá de “prémio” ao desejo do ser. Estas, têm como meta o plus–ultra do ego, na reposição da harmonia entre as almas envolvidas. Porque toda alma faz parte de um grupo, de uma família de almas, onde cada uma é, o suporte ascensional das outras.
Para além da visão comum, vemos a frágil veste espiritual que cobre as fúrias combatentes do mundo astral. Nestes campos, e nas horas de sono, são muitos os que ali se comprazem nas lutas acérrimas, ódios antigos, alimentados ainda, pelas frustrações diárias das suas opções de vida, e incendiados pelas marcas traumáticas dos seus passados.
No estado de vigília, e sob uma fina camada do verniz da convencionalidade rastreiam a senda da felicidade, que se torna indistinta na poeira da convulsão emocional em que se deixam envolver. Proclama-se um bem-estar nunca conhecido, um amor nunca sentido, uma paz nunca vivida.
Quantas vezes fazem-se vivências simultâneas, nas mais variadas frequências vibratórias. O ser holístico absorve do subconsciente (Akasha) a radiação predominante que vai impregnando os diversos corpos dimensionais.
Aquilo a que é dado chamar de expansão ou maturidade consciencial, nada mais é que fazer uso dos três Tês:
-Transferir – de forma gradual o acervo para o plano do mental superior
-Transmutar – reconhecer, trabalhar e curar as feridas da alma
-Transcender – para o plano búdico ou espiritual (o ser regenerado, renascido)
A receita que permite a transcendência deste estágio é a simplicidade. É o despir todas as capas e máscaras, formadas pelo orgulho, preconceito, complexos, insegurança, medo. É o permitir a emersão da criança interior, doce e purificada, e tal como proclamou o Mestre, “nascer de novo, da Água e do Espírito”



Maria Adelina de Jesus Lopes - Do livro Ponte de Palavras







quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Toques de esperança de pessoas especiais


“…não enquadrado no “espírito natalício”, de expressões circunstanciais, de despesismo, de ricos e de lázaros, uns esbanjando e os outros, ao lado, aguardando as migalhas caídas.
    Confiemos que, num futuro – qualquer dia – o NATAL seja mesmo isso, sem casebre e sem reis magos, bastando as almas  quentes e generosas  de pastores, libertas das lendas... ternas embora...
    No entanto, apraz-me, aproveitando a essência  fraterna desta quadra para, com o  coração, aconchegar-me ao calor das outras pessoas sempre reconfortante, o que, de verdade, bom seria se acontecesse todos os dias. Afinal,  NATAL  sem limites, sentido do coração, mesmo que tão só com pensamentos e afecto e Amor…. “



A.F.




terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Graça Divina em 2015

de Maria

em 29 Dez 2014
http://www.fundacaomaitreya.com/imagens/lotus2.png   O caminho espiritual necessita de um enquadramento, duma perspectiva, pois ele existe para um fim específico. Há, então, uma razão para se praticar a via da realização espiritual, onde a meditação é o pilar de auto sustentação para essa realização através da metodologia e pela frequência dessa prática. Há de facto, uma variedade de métodos propostos por doutrinas filosófica ou religiosas, que ensinam que, por uma prática regular de meditação se pode encontrar a felicidade no interior, vindo a tornar-se numa vivência do dia-a-dia, tal como respirar ou comer. Ganha-se uma natural predisposição, onde depois se desenvolve o seu próprio método.

Com a prática o organismo se vai purificando dos bloqueios energéticos e melhorando a capacidade para receber a Graça Divina, realizando, então, experiências mais místicas. Esta descida de energia divina, muitas vezes direccionada especialmente e em certas ocasiões é dispensada dos planos superiores para a humanidade. Receberá maior quantidade desta energia quem estiver mais bem preparado em seu coração e mente. Ela desce livre e gratuitamente e manifesta-se sobre o ser humano que sinta atracção e, predisposição espiritual pelo conhecimento iluminador, pois é pura energia, pronta a revelar-se no interior de cada um e, com efeitos de expansão de Consciência. Gratuita e incondicionada pode manifestar-se de diversas formas e mais ou menos intensa, que depende então, da capacidade espiritual do receptor.

Abhinavagupta, o percursor do Shivaísmo de Cachemira indica três estágios dessa energia:
Intensa, média e débil.

A Graça intensa é energia divina potencialmente criadora, transcendente e pela qual o coração e mente refulgiam totalmente. É um intenso samādhi espontâneo, regenerador espiritual que contribui ainda mais para a integração na Unidade ou Divino. É a comunhão permanente! Não há eu e Ele: é o Eu Sou Ele! Já não há dualidade, nem esforço pessoal para obter algo.
A Graça média é uma energia de amor sentida e recebida como um bálsamo no coração (samādhi mais curto) que pode permanecer durante horas ou dias, onde fulgura a intuição iluminadora, porém, pode não haver muita consciência da sua origem, mas uma grande aspiração espiritual.
A Graça débil ou mais fraca é sentida esporadicamente sem consciência donde surge essa força ou energia de amor, mas leva tal Ser a maior trabalho interior (prática de meditação), para que essa energia sublime volte a acontecer e possa alcançar uma absorção cada vez maior: é ainda a via do esforço, para a concretização espiritual.

Depende, então do grau de evolução espiritual do receptor para abarcar um destes tipos ou escalas de energia e, a sua progressão quer mais rápida ou lenta, depende apenas da persistência do praticante.

Esta energia espiritual ou divina que desce sobre a humanidade e a recebe com menor ou maior intensidade quem estiver preparado, representa uma benesse, quase como um prémio que se ganha com a realização espiritual. Contudo, ela não é dada como um privilégio, mas como um resultado do esforço na perfeição através de vidas e vidas, até que, quando chega a recebê-la intensamente, foi porque se preparou mental e espiritualmente para abarcar a Graça Divina na sua plenitude. É assim, que é inútil querer apressar o passo, usando métodos fáceis enganadores de iluminação pela corrente de modalidades espirituais actuais, em adquirir cursos rápidos de fins-de-semana. A preparação para receber tal Graça, seja intensa, média ou débil depende somente do trabalho interno de cada um (a taça na sua medida), na persistência na caminhada espiritual, de purificação, de sublimação, de aspiração e, sobretudo, de devoção na Divindade.

Há, de facto, muita gente a querer meditar para relaxar sem acreditar em Deus. Pergunta-se, para quê? Se não se acredita em Deus como reconhecer a Graça Divina quando ela desce? Sim, passa despercebida, o que é um desperdício…

A esperança como mensagem para um Novo Ano é que cada Ser seja cada vez mais consciente de si mesmo, tornando-se o próprio Graal, podendo deste modo, ser mais sensível às energias que são dispensadas frequentemente para a humanidade. Ao recolhê-las e reconhecendo-as plenamente como Graça Divina, será então clara e jubilosamente um bom Ano.

FELIZ ANO 2015!

Maria Ferreira da Silva
Spiritus Site